domingo, 19 de fevereiro de 2006 | Fitness | Comentar
Nada de cosméticos ou procedimentos cirúrgicos. Para manter-se jovem a opção mais saudável é correr. É bom para o corpo e para a mente, não tem limite de idade para praticar e sempre é hora de começar (mas consulte um médico antes)
Um estilo de vida saudável, que inclui alimentação e a prática de exercícios, é capaz de prevenir doenças e retardar o que os médicos chamam de “relógio biológico” do envelhecimento. Hoje, mais do que nunca, atividade física faz parte de qualquer tipo de “prescrição médica” voltada à terceira idade. Mas os médicos vão além. É consenso entre eles que o que você faz hoje (principalmente a partir dos 30 anos) resultará em uma velhice com mais ou menos qualidade de vida. “A partir da terceira década para as mulheres e da quarta, para os homens, começa o processo de degeneração das células. Por isso, as pessoas precisam fazer atividade física para chegar à terceira idade saudáveis”, frisa Marco Martins Amatuzzi, professor doutor emérito da Faculdade de Medicina da USP e idealizador e fundador do grupo de ortopedia geriátrica do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo.
Provavelmente por isso vem crescendo, a cada ano, a participação de corredores de cabelos brancos nas maratonas no Brasil e no mundo. Muitos deles integram grupos de corredores amadores ou treinam sozinhos. É o caso de Ruth Ruiz Coscarelli, 67, que treina quatro vezes por semana com o marido, Richard, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Começou por acaso, diz, para acompanhar o filho em uma meia maratona, aos 43. Nunca mais parou. “Hoje, às vésperas de completar 68 anos, me sinto disposta. Não engordei, continuo usando manequim 40, e sinto o meu corpo jovem”, conta. Ruth e o marido já participaram de 17 maratonas (já correram a de Nova York 14 vezes).
Mas já há grupos exclusivos de terceira idade (mais de 60 anos) no Brasil, como o Vovô Cops, fundado em São Paulo, em 2002, e que hoje reúne cerca de 20 corredores acima dos 60 anos, dez deles acima dos 70. “Nos encontrávamos em provas e decidimos fundar o grupo. Ninguém tem como meta ganhar, mas completar a prova bem. A gente treina sozinho. Eu, por exemplo, corro entre 10km e 12km por dia”, diz o aposentado Augusto Trindade, 76 anos, um dos fundadores do Vovô Cops.
Ainda que não haja limite de idade para a prática de atividade física, mesmo para a corrida, um esporte originalmente de “alto impacto”, é preciso avaliar se o idoso tem condições de iniciar um treinamento. “A corrida pode ser praticada desde que a pessoa tenha capacidade física para tal, ou seja, que a intensidade do esforço seja compatível com sua capacidade funcional e o trabalho aeróbio executado”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Esportiva (SBME), Ricardo Munir Nahas. Para aqueles que já caminham e que possuem condicionamento físico, a corrida passa a ser natural, pois o esforço exigido para manter a mesma freqüência cardíaca no treino obriga a acelerar o passo.
É essencial que se faça exames antes da prática da atividade física para identificar possíveis doenças ou limitações físicas que impeçam a prática da corrida, descobrir o estado nutricional do corredor, verificar se ele usa medicamentos e qual o seu nível de condicionamento físico. Em última instância, a soma desses resultados vai determinar como será a planilha de treinamentos. “Todo exame se inicia pela consulta médica e, pensando em atividade física, ela deve ser feita com um médico do esporte para um exame clínico e do aparelho locomotor. Baseado nesta análise inicial, o médico pode solicitar exames complementares, como o teste ergométrico de esforço”, afirma Nahas.
A corrida não deve ser praticada por pessoas com doenças cardiovasculares nas quais a intensidade da corrida seja contra indicada, nem por pessoas que tenham doenças degenerativas nos membros inferiores, principalmente as artroses de quadril, joelho e tornozelo.
Correr traz um sem-número de benefícios para a terceira idade. Num documento que apresenta o posicionamento oficial da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte e da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, publicado em 99, os principais efeitos seriam:
Um estudo, publicado na revista “Medicine and Science in Sports & Exercises” em 2002, acompanhou durante 13 anos dois grupos: um de corredores e um de não-corredores. A taxa de mortalidade dos não-corredores foi 3,3 vezes maior que a dos praticantes de atividades físicas, que, além desse benefício, também retardaram a perda da capacidade para executar tarefas diárias em oito anos.
Além disso, há vantagens psicológicas e sociais que resultam no bem-estar geral do idoso: o treinamento em grupo aumenta a sociabilidade, a auto-estima e a autoconfiança. Um estudo recente do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas (SP) mostrou que há uma diferença significativa entre a qualidade de vida e os índices de depressão de idosas atletas e sedentárias. “Pesquisas mostram que até idosos com 90 anos ou mais se beneficiam de exercícios. Entre as benesses, há a capacidade de subir escadas, andar, mover-se dentro e fora de casa, mas também em qualidade de vida, já que ele se sente melhor e gosta mais de viver”, afirma Guilherme Sguizzatto, autor do estudo e médico geriatra da Faculdade de Medicina da USP.
“Não dá nem para dizer o quanto eu mudei. Tudo hoje na minha vida é melhor. Tudo mesmo. Gosto de chegar no parque e as pessoas dizerem que eu sou melhor do que muita gente jovem”, diz Augusto Trindade, 76 anos, integrante do Vovô Cops.
Na transição dos 30 para os 40 anos começa a diminuir a Reserva Funcional (RF) –mecanismo pelo qual nos adaptamos às sobrecargas funcionais (resposta do músculo a uma solicitação do organismo)– mas nessa faixa etária ela é imperceptível. A diminuição da RF significa que os órgãos ou sistemas tornam-se menos capacitados para responder ao aumento da demanda. “Se a pessoa pratica atividade física com regularidade, consegue manter a Reserva Funcional em seu patamar mais elevado, o que permite uma resposta adaptativa semelhante à de grupos etários mais jovens”, explica Wilson Jacob Filho, geriatra do HC/SP, autor de livro e um dos maiores pesquisadores do país sobre envelhecimento com qualidade de vida.
Os benefícios para aqueles que chegam aos 60 anos praticando uma atividade física como a corrida –além dos já mencionados– incluem, ainda, um fator de proteção para as doenças comuns a quem envelhece, como hipertensão, problemas cardíacos, diabetes, entre outras.
Mas a corrida é um esporte de alto impacto. Por isso muitos idosos, especialmente as mulheres, não o praticam com medo de lesões e fraturas. Esse risco existe, mas com orientação adequada, é minimizado. “Os benefícios cardiorrespiratórios da corrida são tão grandes que as adversidades para a área da ortopedia são consideradas secundárias”, afirma Marco Martins Amatuzzi, da USP. Alongar prepara a musculatura para o impacto da corrida. “O alongamento permite o uso de toda a capacidade da articulação em executar o movimento, já que mantém maior grau de mobilidade e melhor distribuição de forças sobre a cartilagem”, explica Carlos André F. dos Santos, geriatra da Unifesp especializado em medicina do esporte.
A fase de aquecimento também é essencial. Dar uma corridinha de baixa intensidade ou trotar durante alguns minutos antes do treino reduz os riscos de lesão e aumenta o fluxo de sangue para a musculatura.
A rotina de treinamento deve incluir ainda trabalho de força e exercícios de equilíbrio. “Os exercícios contra resistência (musculação), com baixa carga e muita repetição, ajudam a fixar o cálcio no osso e, assim, combater a osteoporose, mais frequente nas mulheres. Já os exercícios de equilíbrio aumentam a qualidade de vida do idoso, que fica com mais equilíbrio e agilidade, o que pode fazer toda a diferença na prevenção de quedas”, diz Marco Amatuzzi, do Laboratório de Movimento do HC/SP.
O que é melhor para quem passou dos 50? Correr ou andar? “Não existe uma resposta. Para aqueles que podem correr sem dor e gostam, a corrida é o melhor. Se há dor, ande. O objetivo é fazer com que as pessoas se exercitem para combater a obesidade e melhorar a saúde. Então, o melhor é fazer tanto exercício quanto possível, se a saúde permitir”, diz William Roberts, presidente do Colégio Americano de Medicina Esportiva, instituição norte-americana com sede em Indianápolis (EUA) que normatiza e estuda temas relativos à medicina do esporte.
| Como o Tempo Age no Corpo | Como a Corrida Retarda As Ações do Tempo | |
|---|---|---|
| SISTEMA NERVOSO | Há um declínio do fluxo de sangue ao cérebro, que está associado à redução dos tempos de reação a uma determinada situação e do equilíbrio. | A corrida aumenta a circulação cerebral e, consequentemente, a nutrição nessa área. |
| CORAÇÃO | O número de batimentos cardíacos por minuto cai, assim como a quantidade de sangue bombeado pelo coração. | Com a atividade física é possível fortalecer a musculatura do coração, que fica mais eficiente para bombear o sangue para o corpo. |
| PULMÕES | Cai a capacidade pulmonar. | Com a corrida, a capacidade cardiorrespiratória é melhorada. |
| METABOLISMO | A taxa metabólica basal (que indica a “velocidade” com que o corpo converte alimento em energia) cai, o que pode levar a obesidade e a altos índices de “mau” colesterol. | A corrida ajuda o corpo a gastar essas calorias extras, além de aumentar a massa muscular, o que aumenta o gasto calórico em repouso. |
| MÚSCULOS | O envelhecimento traz perda de massa e força muscular. O tamanho e o número de fibras musculares caem. A musculatura leva mais tempo para responder. | Com a corrida, melhora o tempo de resposta, a força e a resistência. Quanto mais tarde a pessoa começa a praticar a atividade física, maior é o tempo para alcançar esses benefícios. |
| OSSOS | Há perda de tecido ósseo devido ao desequilíbrio entre a formação e absorção de minerais. Os ossos ficam menos densos e mais frágeis. Isso é mais freqüente nas mulheres, que tem menos massa óssea e que perdem com mais velocidade do que os homens. | A boa notícia é que a corrida ajuda a prevenir a osteoporose. Para quem já a apresenta, dependendo do quadro clínico e do % de diminuição da massa óssea, caminhar pode ser uma alternativa. |
| CARTILAGENS E TENDÕES | A quantidade de água das cartilagens e dos tendões diminui, tornando-os mais sujeitos a estresse. | Infelizmente, não se sabe o que a corrida provoca ao longo prazo nas articulações e tendões. |
| LIGAMENTOS E TECIDOS CONECTIVOS | Com a idade, eles tornam-se menos elásticos e perdem flexibilidade. | Como a corrida melhora a circulação, há chances de eles colherem benefícios também. |
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Jeferson Corrêa Porto é professor de Educação Física graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – RS, Mestrando em Atividade Física e Saúde pela Universidad Católica “Nuestra Señora de la Asunción” – UC, Especialista em Fisiologia das Atividades Motoras em Academias – ginástica, musculação e hidroginástica pela FUNGLAF/AL, Especialista em Bases Fisiológicas e Metodológicas da Atividade Física Personalizada – Personal Training pela FUNGLAF/AL, Especialista em Fisiologia do Exercício pela UVA/RJ.
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