Ir para o conteúdo

Artigos

Os Segredos da Ciência do Esporte

quinta-feira, 04 de maio de 2006 | Fisiologia | Comentar

Não foram só os equipamentos, vestimentas e acessórios do mundo da prática dos exercícios que evoluíram nos últimos anos. Embora seja do conhecimento de poucos, uma informação ainda restrita a grupos de cientistas envolvidos com o desenvolvimento de pesquisas laboratoriais, a genética com foco na fisiologia do exercício, tem desvendado questões que em breve irão revolucionar a ciência do esporte.

Uma sala de musculação com equipamentos controlados por uma rede neural acoplada a uma central, atletas correndo em esteiras com sistemas de absorção de impacto e eletrocardiograma com sinal sonoro beat-by-beat, tênis com chip modulador de pisada e roupas com tecidos especiais que absorvem o suor e facilitam a dissipação do calor.

Tudo desenvolvido no sentido de minimizar os desconfortos e os riscos de lesões amplificando a performance física e a possibilidade de alcance dos objetivos pelo qual o indivíduo propôs-se a praticar exercícios. Uma sistemática hightech indiscutível, mas que em breve terá grande parte de suas atenções cedidas ao que há de mais recente e revolucionário em termos de ciência, a genética. Com um mapa genético do praticante de exercícios em mãos o fisiologista poderá predizer sua susceptibilidade em se tornar um atleta de destaque ou quem sabe, no caso de um indivíduo obeso, avaliar o quão favorável é a perda de gordura através do treinamento físico.

O mapeamento de todo o genoma (DNA), ou seja, de todo o código genético humano possibilitou a verificação de que o ser humano possui aproximadamente 30 mil genes e que parte desses genes são a base de controle de toda a estrutura e funcionamento do organismo. No entanto, o seqüenciamento minucioso de determinados genes possibilitou a detecção de pequenas alterações no seu código, com potencial em aumentar ou diminuir uma função do organismo.

Essas pequenas alterações denominadas mutações gênicas, são a base para o entendimento do porque indivíduos distintos respondem de forma diferenciada quando submetidos a um mesmo programa de treinamento físico e/ou dieta.

Trocando em miúdos, porque alguns poucos atingem marcas de nível olímpico em modalidades esportivas específicas e outros não reduzem sua taxa de LDL (o mau colesterol) para níveis normais com a prática de exercícios. Uma explicação pertinente às questões acima seria: O corredor de 100m rasos possui o genótipo D/D para o gene da enzima conversora de angiotensina, e é homozigoto para o alelo mutante 577X do gene da alfa-actinina 3, duas mutações gênicas que favorecem a geração de força muscular em curto intervalo de tempo aumentando as chances de destaque em provas que exigem alta potencia muscular. Já, para o indivíduo hipercolesterolêmico, seria em vão a expectativa de que seu colesterol reduza apenas com a prática de exercícios físicos associado a uma dieta rigorosa. Aqui é sabido da necessidade de acrescentar a esta intervenção um recurso medicamentoso que irá primariamente auxiliar a atingir tal objetivo. Afinal foi detectado neste indivíduo uma mutação no gene do receptor de LDL, uma estrutura responsável em retirar estas partículas do sangue e que, quando alterada, torna-se ineficiente em desenvolver sua função.

Acredito que em breve os profissionais da área desportiva e de saúde e bem-estar deverão familiarizar-se com a linguagem acima, algo assustador a primeira vista, mas que deixa de ser complexo a partir do momento em que se inicia a introdução do novo conceito. Atualmente, os grandes laboratórios da área de genética do mundo inteiro encontram-se centrados no “rastreamento dos genes candidatos”. Nada mais inteligente do que sairmos à caça daquelas alterações no código de genes e testarmos se estas mutações têm potencial em alterar as funções do organismo. No momento já foram identificadas 170 mutações que estão associadas à performance física e à boa forma física relacionada à saúde. No Brasil um centro de referência neste rastreamento é o Instituto do Coração (InCor HC-FMUSP) de São Paulo.

Recentemente identificamos uma mutação num gene que por incrível que pareça, tem duas faces e é vital para o bom funcionamento do sistema cardiovascular. A mutação pode tornar o indivíduo mais propenso ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares e a não presença do gene mutante pode favorecer atletas que queiram se destacar em provas de resistência, ou seja, baixa intensidade e longa duração. Uma descoberta fantástica que sem dúvida será mais um importante foco de estudo em terapia gênica. Esta consiste em introduzir no indivíduo um gene com o código normal que irá normalizar uma determinada função do organismo, inexistente ou prejudicada pelo gene mutante.

Em suma, nada pode ser mais hightech que a possibilidade de, com uma simples amostra de sangue e a utilização de ferramentas de última geração em biologia molecular, conhecermos todo o perfil genético de um indivíduo e traçarmos como seria sua evolução ao longo de um programa de treinamento. A possibilidade de acerto do profissional com relação ao que é almejado pelo atleta/paciente cresce, e o mais importante, o não alcance dos objetivos desejados com a prática dos exercícios deixa de ser frustrante a partir do momento em que o atleta/paciente foi previamente avisado de que sua bagagem genética é desfavorável ao que ele deseja. O profissional será valorizado pela competência em prever algo que não se realizará e inteligentemente optar por caminhos alternativos.

Todo esse cenário deverá alterar parte das estratégias de atuação de empresas do mundo fitness interessadas no desenvolvimento de tecnologia e atendimento especializado relacionado principalmente à saúde e bem-estar. Um mercado em ascensão em decorrência da conscientização e conseqüente procura pela prevenção e reabilitação de doenças.

Direitos Autorais
www.fitnessbrasil.com.br
Fonte:Dndo. Rodrigo Gonçalves Dias

Deixe um comentário:





Procurar artigos

Livro

Lançamento do livro: LongeVIDAde - Atividade Física e Envelhecimento

Livro

Comentários recentes

Sobre o autor

Jeferson Corrêa Porto é professor de Educação Física graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – RS, Mestrando em Atividade Física e Saúde pela Universidad Católica “Nuestra Señora de la Asunción” – UC, Especialista em Fisiologia das Atividades Motoras em Academias – ginástica, musculação e hidroginástica pela FUNGLAF/AL, Especialista em Bases Fisiológicas e Metodológicas da Atividade Física Personalizada – Personal Training pela FUNGLAF/AL, Especialista em Fisiologia do Exercício pela UVA/RJ.

  • Membro do Laboratório de Cineantropometria, Atividade Física e Promoção da Saúde (LACAPS – UFAL – Campus Arapiraca-AL);
  • Membro Pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas Sócio-Jurídicas (GEPSOJUR - UFAL);
  • Membro da Sociedade Brasileira de Personal Training (SBPT);
  • Membro da International Federation of Body Building and Fitness (IFBB);
  • Membro da National Academy of Sports Medicine (NASM);
  • Membro do Colégio Brasileiro de Atividade Física, Saúde e Esporte (COBRASE);
  • Membro da International World Games Association.

Direitos © 2005-2010 Jeferson Corrêa Porto Personal Trainer - Todos os Direitos Reservados

marlonix.com