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Temperatura da água e atividade física

segunda-feira, 19 de maio de 2008 | Esportes Aquáticos | Comentar

Escrito por Bona 

Aqui está outro tema muito controverso em natação, ou em qualquer esporte ou atividade física aquática. De um lado atletas, alunos e praticantes gostam e pedem a água sempre mais quentinha. De outro lado, profissionais e empresários deixando a temperatura sempre um pouco mais baixa, seja por razões fisiológicas, seja por razões econômicas. No meio disso, médicos e fisiologistas tentando fundamentar esta ou aquela posição.

Algumas das turmas mais problemáticas com que convivi como Gerente Operacional eram as das senhorinhas da hidroginástica. Estas adoráveis tiranas (várias delas minhas amigas e algumas até fãs) brigavam bastante comigo, pedindo água de 32º C a toda hora. Por conta disso, mantive vários contatos com médicos meus colegas aqui na EEFEUSP e todos eram unânimes em me dizer para resistir ao assédio delas, pois há pelo menos dois problemas muito comuns que podem ser potencializados pela água muito quente: a pressão baixa, que pode levar a tonturas e até desmaios na hora de sair da água, e as varizes, cujas dilatações podem se agravar.

Bem, não tenho uma palavra pretensiosamente definitiva sobre o assunto. Mas ao longo dos anos pude desenvolver uma classificação que tenta conciliar todos estes aspectos de forma bastante prática e exeqüível, seja em academias (onde militei muitos anos) seja nos clubes e mesmo em águas abertas. Reitero que a concordância com esta classificação não elimina conflitos, principalmente se a academia ou clube dispuser de apenas uma piscina de uso comercial para acolher todos os clientes e tipos de trabalho, mas ajuda a organizar um pouco as coisas. Se houver mais de uma piscina disponível, o ideal é que a maior fique com a temperatura mais baixa e receba o trabalho mais intenso, enquanto que a(s) menor(es) fique(m) com as temperaturas mais altas e acolha(m) os idosos e bebês.

Gostaria, portanto, de compartilhar estas idéias com aqueles que estão chegando ou que estão a pouco tempo no mundo das piscinas.

Distingo claramente cinco faixas de temperatura de água em relação às atividades físicas. Nestas faixas, a utilização dos limites inferiores ou superiores vai depender sobretudo da temperatura ambiente, ou seja, no dia mais quente use o limite inferior, e no dia mais frio, fique com o limite superior.

1ª. Faixa - até 15,5oC (que denomino faixa URSO POLAR): nestas temperaturas são possíveis apenas aquelas atividades físicas mais que radiais, extremas (travessias de lagos no Canadá, mergulhos no gelo para documentários, etc.), e sempre com o uso de roupas isolantes de borracha (neoprene) tipo Longjohn: pernas e mangas longas e espessura 5/3 (5 mm no peito e 3 mm nas mangas). Mesmo assim, os riscos de hipotermias são bastante altos e recomenda-se monitoramento médico severo. Com temperatura abaixo de 15º C, o uso da roupa de borracha é obrigatório em todas as categorias no Troféu Brasil de Triathlon (Cap. II, item 7).

2ª. Faixa – de 16oC a 24oC (chamo de faixa RADICAL): nesta faixa a FINA já permite oficialmente provas ditas de Águas Abertas (Regra OWS 5.5) e esportes radicais como o surf, windsurk, katesurk, bodybording e mergulho são plenamente possíveis, desde que praticados com as roupas de borracha adequadas. A orientação é a seguinte: shortjohn de mangas e bainhas curtas, com espessura de 2 mm de neoprene é apropriado para águas mais quentes, como 20°C. Springsuit: espessura de 3/2 mm de neoprene (o primeiro número é a espessura do peito, e o segundo das mangas) e é apropriado para águas com temperaturas entre 18-23°C, podendo ter mangas e bainhas curtas ou longas. Longjohn (mangas e bainhas longas) se a temperatura da água é de 18°C ou menos, com espessuras de 4/3 e 5/3.

No regulamento do Troféu Brasil de Triathlon, o uso de roupa de borracha para atletas amadores e elite amador a partir de 25 anos é liberado, independente da temperatura da água. Para os atletas profissionais e elite amador de 15 a 24 anos só é liberado o uso de roupa de borracha quando a temperatura da água estiver 21ºC ou abaixo. (Cap. II, itens 5 e 6).

3ª. Faixa – de 25oC a 28oC (faixa ATLETA): esta é a banda de variação que, segundo a regra FR 2.11 da FINA, as piscinas oficiais devem apresentar em suas águas. Nestas condições são possíveis competições oficiais e extra-oficiais de Natação, Saltos Ornamentais, Pólo Aquático e nado Sincronizado, assim como treinamentos avançados destes desportos aquáticos. Aulas somente para alunos adolescentes ou adultos jovens, e mesmo assim em turmas de aprendizado avançado ou aperfeiçoamento. A Hidroginástica também somente é recomendável para turmas mais jovens e avançadas, cujos instrutores consigam imprimir um ritmo mais forte de aula. Deficientes, só se for para atletas competitivos grávidas só se for o caso de ex-atletas e, mesmo assim, preferencialmente nos dias mais quentes.

4ª. Faixa – de 29ºC a 30ºC (faixa ALUNO): é a faixa de ouro de toda academia ou curso de Natação em geral. Nesta faixa se encaixarão 95% de todas as atividades aquáticas de uma piscina comercial, ou seja, todo o aprendizado da Natação em todos os níveis e idades acima de 2 anos, toda a hidroginástica, incluindo as grávidas (elas vão reclamar, mas o jeito é agüentar), atividades alternativas como cursos de surf e mergulho, e mesmo outras mais ocasionais como hidro axé, hidro circuito, etc. Mesmo se a academia desenvolver turmas especiais para deficientes físicos, eles poderão usufruir bem destas temperaturas desde que mantenham preservada boa mobilidade corporal para as aulas.

5ª. Faixa – de 31ºC a 32ºC (faixa BEBÊ): também conhecida carinhosamente como sopa de aluno, esta faixa de temperaturas mais altas ficam reservadas para: bebês de até 2 anos (também conhecidos como Bebês I), hidroterapia, quando houver e para os deficientes físicos mais comprometidos em termos de movimentação espontânea. Lembro que, nestas condições térmicas, o tratamento químico deve ser bastante rigoroso, com aferições três vezes ao dia de cloro e pH e acompanhamento de profissional devidamente habilitado.

De qualquer forma, para a efetiva redução dos conflitos e de reivindicações descabidas, recomendo sempre um trabalho constante de informação e conscientização dos alunos, além do uso de um termômetro deixado permanentemente amarrado à escadinha e mergulhado na água da piscina.

Mesmo assim, lembro-me bem que numa das academias onde trabalhei muitos anos, os alunos, por nunca acreditarem na temperatura mostrada, me diziam que o termômetro havia sido comprado na Casa das Mágicas. Fazer o quê?

Direitos Autorais
http://blog.educacaofisica.com.br/dentrodagua

20 comentários

  1. José Antônio T. Borges da Costa

    Caro Prof. Jeferson,

    tenho 50 anos e nado diariamente. Convivo com os conflitos sobre a temperatura da água há muito tempo. Entra ano e sai ano e parece que nunca saímos da estaca zero nos clubes e academias. As tiranas da hidroginástica…
    Mas não devemos desistir! É preciso investir no esclarecimento das pessoas. Por isso gostaria de ver este seu artigo publicado aqui em Santa Maria em um dos jornais locais. Tanto o Diário de Santa Maria como A Razão, mantém cadernos especiais sobre saúde. Que tal? Da minha parte vou divulgar o seu artigo. Parabéns.

  2. Angela Burns

    Caro professor:
    Seu artigo me foi útil para sanar uma dúvida.
    Pratico hidroginástica em uma turma para a terceira idade,na qual me incluo, em uma cidade de clima frio.A temperatura da piscina
    tem estado muito alta(segundo a minha avaliação, que está de acordo com o seu artigo).Na última quinta-feira o termômetro indicava 37ºC.Eu saí da piscina com tonteiras
    e um colega, mais velho,deixou aula antes do término.Solicitamos providências ao Coordenador da Academia e estamos aguardando a resposta. Enquanto isso,estou divulgando o artigo e o site.Abraços.

  3. Douglas

    sou outro que luta para acabar com este “paradigma”.
    Professor, parabéns pelos esclarecimentos, e também estou disposto a espalhar este artigo.

  4. Professor,

    Entendo as colocações sobre a temperatura da água, como praticante de hidroginástica com a água a 29º não estou tendo prazer em fazer a atividade e sim sentindo frio e desconforto. Acho que nem sempre o ideal é o melhor a ser feito.

  5. lucieni

    Professor Bona
    Sou professora de natação e também enfrento problemas com esta questão da temperatura da água.Obrigada por suas colocações e esclarecimentos, estava dificil d encontrar algo sobre o assunto aqui na rede.

    A propósito vc é o Bona que trabalhou na escola de natação Trampolim que ficava nas perdizes, são Paulo?

    obrigada
    Lucieni

  6. Prezada Luciene, este blog pertence ao Prof. Jeferson Porto. Sendo que o Prof. Bona autorizou a publicação de alguns textos de sua autoria neste blog. O link de acesso ao blog do Prof. Bona encontra-se logo abaixo da matéria.
    Mesmo assim agradeço sua participação…
    Volte sempre…

  7. Bruna Cristina

    Professor , foi muito util para mim toda essa informação. Trabalho em uma academia onde a temperatura da piscina varia entre 30º e 34º.Sou do Rio de Janeiro e o clima aqui é sempre quente,mais mesmo assim os alunos reclamam que a àgua está fria, eles acham que tem que estar na temperatura do chuveiro, eu ja não aguento mais tanta reclamação e eu explico e explico e eles dizem que o médico falou que tem que ser mais quente. Ja perdi vários alunos por causa disso , mas só tenho esse problema em uma turma. Tenho 13 turmas de hidro mais só essa reclama, eu com toda paciência do mundo explico e explico.
    Gostaria de saber se há comprovação ou pesquisas que determinam a temperatura ideal para a prática de hidro. E se possivel não querendo ser abusada, se poderia mandar algo para meu mail para eu anexar no mural para ficar a vista de todos se possivel for.
    Obrigada!

  8. Giselle

    Esse artigo foi muito iteressante,parabéns!!!
    Gostaria muito de ver mais artigos sobre a temperatura da água relacioado com o sistema cardio respiratório,o que acontece, como fuciona ou coisa parecida???

  9. EU ODEIO FRIO!
    EU ODEIO ÁGUA FRIA!
    EU ODEIO HIDROGINÁSTICA NA ÁGUA FRIA 29º!
    ODEIO PROFESSOR CHATO QUE DEIXA A ÁGUA FRIA NOS DIAS MAIS FRIOS!!
    TO DETESTANDO HIDRO.

  10. Vera Lucia

    Eu nado numa piscina aquecida e descoberta de clube, que no inverno fica dificil de nadar, pois como sair de uma água quente(varia em torno dos 30°) para o ambiente frio. Sou do Rio, mas este tbm tem dias frios.
    Na ultima semana nadei apenas 1 dia, pois foram dias de frio. Mas mesmo assim as senhoras da hidro acham ótimo a agua quente, não pensam que ao sair daquele”caldo” podem ficar até doentes.

  11. adelina

    Caro professor,

    Desde que comecei minha curta carreira de professora de Educação Física estou nesse dilema entre água fria e água quente com minhas alunas idosas. Amo trabalhar com água, mas as vezes quando ela está muito quente pode fazer mal até mesmo para nós professores por causa das propriedades químicas dos produtos que são usados na água. Gostei muito do artigo e gostaria de ter mais informações sobre o assunto.
    Abraços

  12. Mauro Pessoa

    Já tive uma conversa com médico alergista e fui informado que o banho frio quase sempre é saudável para as pessoas alérgicas eu quase sempre só tomo banho frio. Já era uma tradição que meu pai médico clinico geral sempre falava em casa. Não quero dizer que isto é uma regra geral, até porque existem pessoas com restrições para o banho frio.
    Voltando a natação, sempre tive este habito do banho frio durante muitos anos e nadando com águas em torno 23°. Que ajudou para algumas travessias feitas em águas abertas não como competição, mais como treino. O meu organismo sempre resistia até com águas em torno de 22 graus e até menos, em correntes variadas mesmo no verão um verdadeiro choque térmico, coisa esta que praticava na praia de CAMBOINHAS e o organismo sempre suportava.

  13. Sueli Genofre Luppe

    Pratico natação há l5 anos por indicação médica. Tenho osteoartrose e sinto-me muito dolorida, quando em dias quentes, a academia abaixa a temperatura da água, deixando-a fria. Sinto dor nos ossos e dores nos dias que se seguem. Estou desanimada por ter de abandonar esse tipo de esporte,tão saudável para doentes reumáticos, devido a temperatura baixa da água.

  14. EDUARDO FINN

    As pessoas que reclamam do frio expressam tão somente um ponto de vista subjetivo. P. ex.: Jamile diz achar horrível a água a 29°C, mas uma temperatura ambiente nessa faixa é quente.
    Agradeço ao professor por publicar essas definições de faixas que são objetivas e não julgamentos subjetivos, como “acho frio”. Temperatura é dado físico e exato. Ao longo dos meus 42 anos de natação, sempre que usei piscinas térmicas tive problemas. Abraços.

  15. Sou do Rio Grande do Sul e faço Hidro a mais de 12 anos. Este ano a academia que frequento mudou de dono e os “novos” administradores estão utilizando as informações deste site para manter a água a no máximo 30 graus. ok, mas estamos com temperatura de no máximo 10 graus ambiente, não seria o caso de termos agua mais quentinha, uns 2ou3 graus para compensar? Tenho fibromialgia e não encontrando facilidades nesta água, vou desistir da prática. Penso que as orientações deveriam propor soluções conforme o clima, li acima vários comentário do Rio de Janeiro, mas no sul a realidade é outra, certo?

  16. Gostaria de um artigo sobre a temperatura da água para locais frios. Adoraria. Grata

  17. otimo

  18. Olá Marisa. Acredito que nesse caso o bom senso é a melhor opção para se chegar a um denominador comum. Também é oportuno lembrar que na academia existem várias pessoas praticando a mesma aula, tornando assim o ambiente bastante heterogêneo, dificultando um ajuste mais preciso, nesse caso a temperatura da água, principalmente para você que tem fibromialgia. Procure conversar com os Professores e demais para encontrarem uma solução sem que a mesma seja a sua desistência. Uma saída seria observar o horário em que você pratica a hidroginástica, na medida do possível, você poderia escolher um horário em que a temperatura externa não esteja em um patamar tão baixo.
    Espero ter colaborado, como também espero que você não desista em praticar a hidroginástica.
    Um abraço. Volte sempre. Qualquer dúvida entre em contato.
    Prof. Jeferson Corrêa Porto

  19. marilena

    adorei

  20. marilena

    Gostei muito desta materia

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Sobre o autor

Jeferson Corrêa Porto é professor de Educação Física graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – RS, Mestrando em Atividade Física e Saúde pela Universidad Católica “Nuestra Señora de la Asunción” – UC, Especialista em Fisiologia das Atividades Motoras em Academias – ginástica, musculação e hidroginástica pela FUNGLAF/AL, Especialista em Bases Fisiológicas e Metodológicas da Atividade Física Personalizada – Personal Training pela FUNGLAF/AL, Especialista em Fisiologia do Exercício pela UVA/RJ.

  • Membro do Laboratório de Cineantropometria, Atividade Física e Promoção da Saúde (LACAPS – UFAL – Campus Arapiraca-AL);
  • Membro Pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisas Sócio-Jurídicas (GEPSOJUR - UFAL);
  • Membro da Sociedade Brasileira de Personal Training (SBPT);
  • Membro da International Federation of Body Building and Fitness (IFBB);
  • Membro da National Academy of Sports Medicine (NASM);
  • Membro do Colégio Brasileiro de Atividade Física, Saúde e Esporte (COBRASE);
  • Membro da International World Games Association.

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