sábado, 23 de setembro de 2006 | Diversos | Comentar
Nestes últimos dez anos, assistimos, em diversos setores, da sociedade uma série de transformações. Ainda que o espaço destas páginas não permita uma descrição detalhada, nem seja a intenção deste artigo, entendemos ser possível mencionar as mais relevantes: as formas de produção tornaram-se mais arrojadas com a incorporação de novas tecnologias pela indústria, nas relações trabalhistas verificamos, sobretudo, a tercerização dos serviços, as transações comerciais e econômicas tornaram-se mais ágeis devido ao incentivo às importações, à circulação de bens e serviços, às compras pela internet e à grande disponibilidade de produtos, proporcionada pela livre concorrência e pelo impulso do livre mercado.
No campo da Ciência Biológica, os exemplos são inúmeros: os produtos transgênicos, o mapeamento do DNA, a vacina antigripal.
Nas Ciências Sociais, podemos destacar a visualização do multiculturalismo, a aceitação das diferenças étnicas, de gênero e de posição social e a consolidação do relativismo cultural.
Bem, o mesmo se pode dizer da Educação Física e especificamente, da sua “ciência pedagógica”. Em um movimento dialético, a legislação educacional tem interpretado e decodificado estas transformações: o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Declaração de Salamanca, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, as Diretrizes Curriculares Nacionais, o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, os Parâmetros Curriculares Nacionais (que neste momento encontram-se em reconstrução), as Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores e as Diretrizes Curriculares para os Cursos de Educação Física.
Apesar da dificuldade em descrever sucintamente cada um dos princípios e idéias que nortearam a elaboração destes documentos, vale a pena destacar a participação democrática, a descentralização, a autonomia, o exercício pleno da cidadania, a criticidade, o diálogo, a pluralidade de idéias pedagógicas, a diversidade cultural, a inclusão, a não-discriminação cultural e social etc.
O presente momento, que impulsionou a ebulição de novas idéias sobre a prática pedagógica da Educação Física, tem sido, por diversos autores, denominado de “crise de identidade”, isto é, o confronto entre as experiências formativas dos profissionais diante das recentes solicitações sociais. Algumas indicações, no entanto, têm sido sugeridas em diversos espaços, compreendidos entre a quadra e o pátio escolares e a academia.
A freqüência aos eventos científicos, o contato com os professores, tanto nos cursos de pós-graduação quanto nos momentos de formação contínua, e a literatura fartamente disponível nos permitem vislumbrar um diversificado leque de experiências e práticas bem-sucedidas, relatadas oralmente ou publicadas em monografias, dissertações, teses e artigos. Neste curto período para a História da Humanidade – apenas uma década -, mas excessivamente rico para a construção de novos saberes, a Editora Phorte realizou uma importante tarefa: disponibilizou e divulgou parte das descobertas mais relevantes neste campo.
É por meio da revisão e combinação destas produções que apresentamos uma série de possibilidades abertas para a construção de uma prática escolar em consonância com o atual momento histórico e social:
a) Identificamos uma forte aproximação e uma problematização com o cotidiano escolar, o que é fundamental, tendo-se em vista o direcionamento das políticas públicas e propostas curriculares, seja para a educação como um todo, seja para a Educação Física.
b) Um alargamento da compreensão de corpo humano, ampliando-se o olhar para a sua dimensão histórica e cultural, rompendo-se com a idéia de que o corpo se restringe ao biológico, ao mensurável.
c) A consolidação de uma adequação pedagógica dos conhecimentos advindos da Psicomotricidade e inter-relacionados com as preocupações que afligem os professores no cotidiano escolar.
d) Um entendimento de que os estudos da área da aprendizagem, desenvolvimento e controle motor podem se constituir, se contextualizados culturalmente, em conhecimentos necessários ao professor, mas não podem ser confundidos com os objetivos e temas da prática escolar da Educação Física.
e) Uma aproximação do ensino da Educação Física de um referencial histórico-cultural que considere e investigue a História singular das crianças e adolescentes e a História sociocultural de práticas corporais construídas pela comunidade e pela humanidade como um todo, porque ambas constituem uma rica fonte de temas para as aulas; representando o patrimônio da humanidade.
f) Um abandono das funções sociais que vinculam a Educação Física ao mundo do trabalho (como instrumento de preparação física de mão-de-obra ou forma de controle e disciplina dos corpos).
Ao mesmo tempo, defende-se uma articulação e um alinhamento da Educação Física à função social da preparação para o mundo do lazer saudável, tentando garantir o acesso e a vivência de práticas corporais lúdicas e potencialmente educativas para uma melhoria da qualidade de vida.
Pelo exposto acima, podemos inferir que “o estado da arte” do componente curricular mostra-se através de uma concepção de ensino, que tem como referência permanente a omnilateralidade humana, da (e na) qual a Educação Física deve investigar, conhecer e tratar a corporeidade humana – a infinita capacidade do ser humano construir corporalmente sua existência, suas relações e suas múltiplas linguagens. É desta corporeidade que a Educação Física pode extrair a sua matéria prima, isto é, as práticas corporais lúdicas (jogo, esporte, dança, ginástica e lutas) para organizar a sua intervenção pedagógica na escola. Em suas aulas, os professores inseridos nas mais diversas comunidades escolares podem problematizar, perpetuar e recriar tais práticas, reinventando-as e ampliando-as continuamente.
Direitos Autorais: Este texto é de autoria de Mauro Gomes de Mattos e Marcos Garcia Neira, autores das obras Educação Física Infantil – Construindo o Movimento na Escola, Educação Física na Adolescência – Construindo o Conhecimento na Escola, Educação Física Interrelações entre outros , todos da Phorte Editora Ltda (11) 3141-1033 www.phorte.com Fonte:Phorte editora 6/9/2006
Jeferson Corrêa Porto é professor de Educação Física graduado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – RS, Mestrando em Atividade Física e Saúde pela Universidad Católica “Nuestra Señora de la Asunción” – UC, Especialista em Fisiologia das Atividades Motoras em Academias – ginástica, musculação e hidroginástica pela FUNGLAF/AL, Especialista em Bases Fisiológicas e Metodológicas da Atividade Física Personalizada – Personal Training pela FUNGLAF/AL, Especialista em Fisiologia do Exercício pela UVA/RJ.
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