Música e exercícios
É comum ocorrerem questionamentos sobre a utilidade da música como um recurso auxiliar a prática de exercícios. No que tange à preferência individual, não há o que analisar, mas e quanto à parte experimental? Empiricamente, a maioria de nós tem alguma opinião formada sobre a utilização de música, há quem só se exercite com música, assim como há os que preferem o silêncio. Para alguns a motivação é o fator mais importante da música, para outros é a concentração e alguns preferem simplesmente a distração.
Com certeza eu tenho minha opinião e você a sua, mas qual será o posicionamento da ciência quanto a isso?
Por incrível que pareça, esta questão não se resume a discussões de porta de academia, muitos cientistas respeitáveis de países sérios, como Rússia e Alemanha já se preocupavam com o assunto na década de 70. Em 1979, o alemão LIPTAK publicou um artigo, no qual se analisaram o efeito da música pop na freqüência cardíaca e pressão arterial (sistólica e diastólica) durante o repouso, exercício e recuperação. O autor encontrou boa correlação entre os efeitos fisiológicos e os psicológicos, com destaque para a redução da monotonia e da fadiga.
Mais de uma década depois, em 1991, COPELAND & FRANKS estudaram os efeitos de diferentes tipos de música na freqüência cardíaca, percepção de esforço e tempo de exaustão durante três testes em esteira: música popular rápida e excitante (A); música popular calma, lenta (B); sem música (C). Na situação B, tempo de exaustão foi maior e a percepção de esforço foi menor.
BECKER et al (1994) seguiram uma linha diferente, eles procuraram verificar a influencia da música quando usada antes do exercício, para isso utilizaram música “frenética” e “melosa” (em inglês os autores se referiram frenetic e mellow, respectivamente). Antes de cada teste de dois minutos, os sujeitos eram expostos durante 60 segundos a um dos tipos de música ou ao silêncio. De acordo com os resultados ambos os estímulos musicais influenciaram positivamente no teste, sem diferença entre eles, mas em estudo realizado no ano seguinte, o mesmo BECKER, com outros autores, verificou que o uso de música lenta diminui a distância percorrida em teste com caminhadas, significando que a cadência da música pode influenciar o ritmo do exercício.
Ainda em 1995, BROWNLEY usou três condições auditivas (sem música, com música sedativa e rápida) em exercícios de intensidade baixa, moderada e alta. Em relação aos estímulos auditivos obteve-se os seguintes resultados: música rápida = aumento da freqüência respiratória e as taxas de cortisol (em combinação com exercícios intensos). Neste estudo houve uma constatação interessante: a música exerceu maior influência psicológica em indivíduos destreinados do que em treinados, talvez pelo fato dos últimos estarem mais acostumados psicologicamente a condições de estresse.
SZMEDRA & BACHARACH (1998) usaram a esteira rolante como ergômetro e mediram o consumo máximo de oxigênio em corridas submáximas, fazendo análises sangüíneas para testar quantidades de norepinefrina e lactato. Os resultados desta e outras análises para o teste sem e com música respectivamente foram: freqüência cardíaca 152,9 e 145,9 bpm; pressão sistólica 158 e 151 mmHg; duplo produto 242,2 e 222,2; percepção de esforço 14,4 e 12,9 e lactato 2,75 e 2,13 mmol/l. Ocorreram alterações na norepinefrina, porém elas não foram estatisticamente significativas. Os resultados levam os autores a concluir que a música possui efeitos psicobiológicos, diminuindo o desgaste metabólico e psicológico, constatações também feitas por PFISTER et al (1998).
No aparentemente sério Reino Unido, SZABO et al (1999) conduziram um experimento objetivando verificar se a manipulação do tempo musical (batidas por minuto) influenciaria na capacidade máxima de trabalho em teste progressivo na bicicleta. O estudo envolveu cinco situações: 1) controle, 2) música lenta, 3) música rápida, 4) lenta seguida de rápida e 5) rápida seguida de lenta (nos dois últimos casos, os tempos musicais eram alterados assim que atingia-se 70% da FCM).
As medidas tomadas foram: carga total de trabalho (em WATTs), freqüência cardíaca e nível de satisfação com o teste. Os resultados: freqüência cardíaca igual para todas as sessões, maior carga de trabalho obtida com a progressão de música lenta para rápida e maior preferência dos participantes pelas sessões com música rápida e progressão de lenta para rápida (situação 4). Tais dados levaram os autores a concluir que progredir a velocidade da música levou a maior capacidade de trabalho sem alterar a freqüência cardíaca, o que pode se devido à “distração” da fadiga.
Mais recentemente, no ano 2000, POTTEIGER et al, realizaram um experimento com 27 jovens fisicamente ativos, no qual realizou-se testes com quatro diferentes tipos de estímulos sonoros (sem música, música clássica, música de batidas rápidas e músicas escolhidas pela própria pessoa). Não houve diferença entre os parâmetros analisados objetivamente (freqüência cardíaca) entre nenhuma das quatro situações, porém todos os tipos de música influenciaram na percepção subjetiva de esforço, sugerindo-a como importante fator de motivação durante atividades físicas. Resultados similares foram encontrados por um grupo de pesquisadores japoneses (HAYAKAWA et al, 2000), utilizando folca tradicional japonesa (seja lá que for isso) e dance music, em comparação com a ausência de música.
Quanto à influência na capacidade aeróbia, parece que a música obteve sua aprovação científica, mas e quanto a atividades submáximas? Para responder esta pergunta, PUJOL & LANGENFIELD (1999), verificaram a influencia da música na performance de um teste de Wingate, porém os resultados não foram tão bons.
Parece que desta vez os dados científicos corroboraram nossa crença, a música realmente mostrou exercer influência positiva sobre o desempenho nas atividades físicas, principalmente em parâmetros psicológicos, como motivação e percepção de esforço, o estímulo musical adequado faz com que você se exercite com mais satisfação, e o melhor, sem perceber o esforço. Uma boa utilidade seria levar o seu walk (ou disc) man ao treino nos dias em que você se sentir indisposto ou com dificuldade de se concentrar nos exercícios.
Este certamente é um dos fatores que asseguram a aderência e eficiência das aulas de ginástica. Mas há um ponto a se ressaltar: como qualquer parâmetro analisado subjetivamente os resultados podem variar muito de acordo com cada pessoa, dependo de seu estado de ânimo e preferências pessoais.
Direitos Autorais
Prof. Paulo Gentil Presidente do GEASE
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