Atividade física exige cautela

Publicado em 7/03/2006, Fitness, Não há comentários

Atividade física exige cautela

Apesar de politicamente correta e saudável, a atividade física segue as mesmas regras de prazeres não tão recomendáveis – como o álcool. Quem exagera na dose, pode sofrer a ressaca no próprio corpo.

Os atletas profissionais são os mais afetados pelo chamado overtraining (sobrecarga de treino), que pode acarretar uma série de distúrbios. Mas os amadores que se cuidem: afinal, os mais afoitos por emagrecer ou ganhar músculos podem desrespeitar os próprios limites e, como conseqüência, são obrigados a pendurar as chuteiras por algum tempo. Quem dorme pouco, se alimenta mal ou vive na correria está mais suscetível ao overtraining. Nessa situação, o corpo não consegue recuperar-se do volume de treino.

O ortopedista especializado em medicina do esporte, André Pedrinelli, do Hospital das Clínicas e da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, diz que esse problema foi apelidado de síndrome dos divorciados. “A pessoa quer emagrecer rápido, então, corta a comida e aumenta a intensidade do treino. Dessa forma, não consegue repor os nutrientes perdidos.

“Quando o quadro já foi estabelecido, ocorrem diversos problemas. “A pessoa fica irritada e pode haver alteração no apetite e distúrbios do sono. Ela fica sonolenta, mas, na hora de dormir, não consegue”, diz o fisiologista Paulo Zogaib, do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Os sintomas não são tão claros. “O mais comum é o indivíduo nem perceber que há algo errado.” É por isso que ainda é difícil diagnosticar a síndrome: não há dados precisos sobre a sua ocorrência.

O curioso é a equação da atividade física: quando ela se dá em volume adequado, há o favorecimento dos três hormônios chamados anabólicos – insulina, testosterona e o hormônio de crescimento. Mas na sobrecarga de exercícios, os hormônios catabólicos são estimulados: o glucagon e o cortisol, que pioram a performance e a capacidade para a prática de atividade física. Então, é comum a pessoa aumentar ainda mais a carga de exercícios, piorando o quadro, num círculo vicioso.

Entre o público feminino, ocorre a chamada tríade da mulher atleta, muito comum em maratonistas. Há queda nos níveis de estrógeno e progesterona, causando atraso, diminuição ou até perda da menstruação, a chamada amenorréia. “Há mudanças de humor e da libido, assim como distúrbios alimentares. É como se a mulher estivesse na menopausa prematuramente”, informa Zogaib. Com isso, pode haver também enfraquecimento ósseo e até osteoporose, o que facilita a ocorrência de fraturas por estresse.

Que o diga a economista Marina Penon, de 27 anos. Ela era a única mulher numa equipe de corrida de aventura. Diariamente, treinava corrida, remo, natação, bike e musculação, acompanhando o ritmo de seus parceiros. “A resistência física do homem sempre é maior”, pondera. Um belo dia, a sua menstruação desapareceu. “Fiquei assustada, meu cabelo ficou ralo e começou a cair muito”, lembra ela, que, na época, tinha 23 anos. O sono e o humor também foram afetados. Até que os exames detectaram um desequilíbrio hormonal.

Aproveitou, então, o período de afastamento das atividades físicas para submeter-se a uma cirurgia de correção do ligamento do joelho – herança da época em que treinava handebol. “Fiquei um mês em casa.” Bastou esse tempo para o humor e o ciclo menstrual voltarem ao normal. Depois de passar por sessões de fisioterapia e por um trabalho de reabilitação, foi liberada para voltar aos treinos. Hoje, pega mais leve – pelo menos, é o que garante. “Vou à academia cinco vezes por semana e treino uma hora e meia. Corro, faço musculação, nado e pedalo.

“As corridas de aventura foram deixadas de lado, pelo menos por enquanto. Para avaliar os sintomas negativos do overtraining, a pesquisadora do Centro de Estudos de Fisiologia da Unifesp, Carolina Ackel DElia, dirigiu questionários para 413 entrevistados – homens e mulheres, 18 a 35 anos, que treinavam em academias pelo menos quatro vezes por semana.

A investigação incluía o padrão do sono, alimentação, tipo de treinamento, lesões e avaliação psicológica, além da dosagem de alguns hormônios. “Na média, a prevalência da síndrome é baixa. Mas, quando se considera os resultados individuais, descobre-se que alguns indivíduos estão exagerando”, conclui. “O curioso é que alguns professores deixam o aluno fazer três ou quatro horas de aulas seguidas.”

ABUSO DAS ESTRUTURAS

As lesões por uso demasiado (overuse) são mais simples do que outras situações de overtraining. “Os maiores riscos estão relacionados ao aparelho motor. São lesões musculares, fraturas por estresse ou tendinites”, aponta Pedrinelli, ortopedista do Hospital das Clínicas (SP). Segundo ele, não existem áreas mais vulneráveis do corpo, tudo depende da modalidade praticada.

Mulheres e homens sofrem lesões da mesma forma. O que pesa são algumas diferenças físicas: a mulher tem quadris mais largos, portanto, sofre uma maior incidência de ligamento cruzado no joelho, podendo sofrer mais lesões nessa área. O problema é que quem está acostumado a treinamento pesado não costuma dar muita atenção à dor.

A administradora de empresas e treinadora da assessoria esportiva 4any1, Fabiana Pereira, de 27 anos, por exemplo, teve uma fratura na tíbia (o osso da canela), por estresse. Ela era maratonista, corria cerca de duas horas por dia, e atribui a lesão à falta de descanso. “Fui morar sozinha nessa época. Trabalhava de dia e estudava à noite, e ia dormir muito tarde. Era pouco descanso para o mesmo ritmo de treino.”

Quando a fratura foi diagnosticada, teve que ficar de molho por cinco meses, fazendo terapias com laser e ultra-som. Hoje, treina até mais horas, como integrante de uma equipe de corrida de aventura. “Aprendi a tomar mais cuidado: evito correr no asfalto por causa do alto impacto.” A designer gráfica Karina Milanez Marques de Souza, de 32 anos, sofreu o mesmo tipo de fratura. A dor começou na época em que jogava handebol, no time da faculdade. “Você pula e cai no chão o tempo todo, isso vai gerando uma fissura no osso.” Apesar da dor, ela continuou treinando, até o dia em que travou numa corrida, literalmente.

Parou de jogar, mas, como não tinham detectado a fratura no raio-X, voltou a praticar corrida de aventura. Depois de um ano e meio, a dor ficou insuportável. Foi quando a fratura foi acusada na ressonância magnética. “Fiz seis meses de fisioterapia.” Depois do retiro forçado, recomeçaram os treinos paulatinamente.

“Agora, se começo a sentir qualquer dorzinha, paro e vou ao médico.” Para prevenir lesões ou overtraining, é aconselhável ter o acompanhamento de profissionais e levar em conta a opinião médica. Para Zogaib, o que vale é o bom senso. “Se você fica muito ofegante, seu coração dispara, você fica sem fôlego, as dores demoram cada vez mais para passar ou ficam até piores, é sinal de que seu corpo não está se adaptando àquela carga de exercícios.” Já Pedrinelli indica testes de esforço físico, que podem ser feitos no clínico geral ou em um médico do esporte.

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