Síndromes Dolorosas dos Membros Superiores I

Publicado em 27/02/2006, Fisiologia, 254 Comentários

Síndromes dolorosas são comuns nos membros superiores (MMSS). Podem ser decorrentes de acometimento por processos degenerativos, metabólicos, inflamatórios, infecciosos, neoplásicos, macro ou microtraumáticos de inúmeras estruturas localizadas na região cervical, torácica, abdominal, MMSS, medula espinhal e encéfalo, incluindo músculos, ligamentos, tendões, ossos, articulações, nervos periféricos, vasos sanguíneos e linfáticos, estruturas viscerais, sistema nervoso (SVC) e sistema nervoso periférico (SNP) ou expressar afecções sistêmicas.

AFECÇÕES DO APARELHO LOCOMOTOR

As afecções dolorosas músculo-esqueléticas dos MMSS podem ser decorrentes de contusões, entorces, fraturas, deslocamentos, instabilidades articulares, artropatias (inflamatórias, degenerativas, infecciosas, neoplásicas e metabólicas), sinovites, bursites, tendinites, lesões ósseas (fraturas, tumores, infecções e metabolopatias) e síndromes dolorosas miofasciais, entre outras.

As bursas são cavidades revestidas de tecido conjuntivo e sinóvia, tem superfície interna lisa e contêm líquido sinovial. Possibilitam deslizamento fácil, suave e harmônico das estruturas em locais onde há acentuado grau de movimento, mesmo na ausência de articulação verdadeira, tal como ocorre quando dois músculos relacionam-se com direção e força de tração opostas, em locais onde músculos e tendões cruzam-se e onde os tendões sofrem atrito contra os ossos, ligamentos ou outros tendões.

Quando lesadas, inflamam-se e geram espessamento da parede e aumento do líquido sinovial. Os ligamentos são feixes de fibras colágenas dispostas regularmente com tendência à disposição espiral e muito sensíveis à tensão na maioria das posições que a articulação adota. Podem ser capsulares, extra-capsulares e intra-capsulares. Atuam como elementos que estabilizam, limitam e orientam os movimentos e como sinalizadores de sensibilidade para os movimentos e posicionamento dos segmentos corpóreos e para ativação de mecanismos musculares reflexos.

SÍNDROME DOLOROSA MIOFASCIAL (SDM) E FIBROMIALGIA

A região cervical, a cintura escapular e o membro superior são locais freqüentes de dores primárias ou referidas de pontos dolorosos musculares latentes ou ativos, que podem ser resultantes de estressores físicos e emocionais. A partir de estímulos iniciais (traumatismos, fadiga, estresses físicos e mentais) são gerados focos de estímulos desencadeando pontos gatilhos onde ocorrem alterações isquêmicas. Os músculos associados acometendo pontos gatilhos podem tornar-se tensos e mais susceptíveis à fadiga. Estas modificações acentuam as reações locais ao estresse, à fadiga e aos estímulos dolorosos devido à redução do limiar de excitabilidade nas terminações nervosas.

OSTEOATRITES OU OSTEOARTROSES (doenças articulares degenerativas).

É processo crônico, degenerativo e inflamatório que acomete as articulações diartrodiais. É mais comum em mulheres entre a quarta e quinta década de vida e após a menopausa. Traumatismos prévios nas articulações acometidas, posturas, obesidade e alterações endócrinas, entre outras causas, podem desencadear ou manter o processo degenerativo. Os estresses mecânicos ou microtraumatismos agem sobre a superfície articular podendo desencadear o quadro, a reação inflamatória ativa enzimas que provocam erosão da cartilagem.

DOR NO OMBRO

A dor e disfunção no ombro podem ser ocasionadas por traumatismos de repetição, traumatismos agudos, artropatias, infecções localizadas, tumores, síndrome do impacto (quando os tendões do músculo (m.) do manguito rotador chocam-se com estruturas suprajacentes), afecções da articulação acrômio-clavicular e esterno-clavicular.

ARTROPATIAS DO OMBRO

O ombro é uma das articulações mais complexas do corpo humano. Apresenta alto grau de mobilidade e é vulnerável à instabilidade, sobrecargas repetidas e posturas inadequadas; envolve a função integrada de diversas articulações, ossos, músculos e tendões. Apresenta os movimentos mais completos e complexos do corpo porque é composto de três articulações (esterno-clavicular, acrômio-clavicular e gleno-umeral) que atuam com a articulação escapulo-torácica sincronizadamente, possibilitando extensão, flexão, abdução, adução, rotação interna e externa do braço. Entretanto, o movimento destas três articulações pode ser inibido devido à dor, anormalidades neurológicas e afecções articulares ou de partes moles.

Dor no ombro é uma das causas mais comuns de dor músculo esquelética, em indivíduos com mais de 40 anos de idade. O ombro doloroso é, geralmente, resultado do comprometimento de estruturas peri-articulares, particularmente do manguito rotador. O manguito rotador é constituído pelos tendões do músculo supra-espinhal, infra-espinhal e do redondo menor que se inserem na tuberosidade maior do úmero e pelo tendão do sub-escapular que se insere na tuberosidade menor.

TENDINITE DO MANGUITO ROTADOR

O manguito rotador é uma banda de tecido fibrotendinoso composto pelos tendões de três músculos acima citados, situados ao redor do colo anatômico do úmero. A inserção do m. supra-espinhal apresenta suprimento sangüíneo deficiente, fato que facilita a sua degeneração e induz à instalação de sintomas após traumatismos de pequena monta durante a execução de atividades normais.

A compressão dos tendões é causa comum de tendinite do manguito rotador. Pode ocorrer em casos de doenças degenerativas em que há formação de osteófitos na articulação acrômio-clavicular e em doentes que executam atividades repetitivas ou sustentadas que envolvem elevação do ombro.

O tendão do supra-espinhal é o mais frequentemente comprometido nestas condições; o tendão do infra-espinhal, como também da cabeça longa do bíceps pode também comprometer-se. A tendinite do manguito rotador caracteriza-se por dor, predominantemente noturna, situada na face lateral do ombro, na região lateral do deltóide e na área do tendão do supra-espinhal. Dor durante o arco de abdução de 60 e 120 graus sugere comprometimento do manguito rotador ou tendinite do supra-espinhal.

LESÃO DO MANGUITO ROTADOR

É rara em indivíduos com menos de 40 anos de idade. Nos indivíduos jovens, a lesão do manguito rotador, geralmente é precedida de traumatismo; em idosos, pode decorrer de alterações degenerativas, traumatismos leves ou instalar-se na ausência de traumatismos. A história deve incluir dados sobre adoção de posturas durante o trabalho (postura dos braços sobre a cabeça), quedas com traumatismos no ombro ou quedas interrompidas com extensão do braço e da mão causando fratura ou deslocamento do ombro.

O doente pode perder o controle motor para abaixar o braço, que cai livremente. A lesão pode ser completa ou parcial. As lesões mais graves são caracterizadas pela ocorrência de dor intensa e impotência funcional. A lesão maciça do manguito rotador em indivíduos idosos pode resultar em artropatia do ombro, com migração acromial da cabeça do úmero, redução do espaço sub-acromial e alterações degenerativas da articulação gleno-umeral. Esses achados são particularmente freqüentes em mulheres idosas.

BURSITE

É uma reação inflamatória aguda das bolsas sinoviais frequentemente associadas ao depósito de material cálcico e a alterações degenerativas ou inflamatórias dos tendões e músculos adjacentes ou a traumatismos diretos. Casos primários são raros. É essencialmente afecção de indivíduo adulto; ocasionalmente ocorre em jovens (associada a alterações inflamatórias). A bursite sub-deltóidea é a mais freqüente. A abdução passiva é limitada entre 70 a 115 graus devido à dor. A dor é aguda e localizada; piora acentuadamente com a abdução e rotação externa do braço. É exacerbada durante quaisquer movimentos à noite.

SÍNDROMES DOLOROSAS DO COTOVELO

Exceto em casos de doentes com artrites e processos inflamatórios sistêmicos, a dor do cotovelo é geralmente particular. A amplitude da movimentação articular passiva geralmente é livre e indolor, exceto quando há acometimento articular. As artropatias inflamatórias também podem acometer o cotovelo. Em casos de artrite reumatóide podem ocorrer a bursite alecraniana e os nódulos reumatóides. A osteoartrite raramente acomete o cotovelo, exceto em indivíduos com história prévia de traumatismos ou com lesões repetitivas importantes como ocorre em esportistas, arremessadores e trabalhadores braçais. Alterações similares aos da osteoartrose podem ser observadas em artropatias de depósito como a do pirofosfato de cálcio.

EPICONTILITE LATERAL

É conhecida também como epicondilite do tenista. A epicondilite lateral do cotovelo é uma das causas mais comuns de dor no cotovelo. O epicôndilo lateral é o local de inserção dos músculos extensores do punho e dos dedos; a epicondilite lateral é precipitada, geralmente, por movimentos repetitivos ou vigorosos de preensão ou extensão do punho. Ocorre, freqüentemente, em indivíduos de média idade, com exceção dos casos de distúrbios osteoarticulares relacionados ao trabalho (DORT); é freqüente em indivíduos que praticam esportes tipo tênis ou executam movimentos repetitivos de punho e digitação sem apoio de antebraço e punho.

A dor é referida na região lateral do cotovelo e é exacerbada durante a preensão. As manobras que geram ou agravam a dor são a extensão resistida do punho e o do terceiro dedo; o alongamento passivo dos músculos extensores do antebraço pode também gerar dor. O alongamento suave desses músculos é recomendado desde que se respeitem o limite da amplitude dos movimentos sem dor. O alongamento vigoroso deve ser evitado para não agravar o quadro clínico. O relaxamento e o alongamento de outras estruturas musculares da região cervical, trapézio, região escapular, tríceps e extensores deve ser realizado concomitantemente para melhorar a eficácia do tratamento.

EPICONDILITE MEDIAL

Em indivíduos que executam atividades repetidas de flexão do punho e dedos e pronação do antebraço como em trabalhadores braçais ou em esportistas podem ter dor e sinais inflamatórios na região do epicôndilo medial, caracterizando a epicondilite medial. É muito mais rara que a lateral. Indivíduos que trabalham com flexão do cotovelo apoiado em superfícies duras podem também desenvolver dor na região medial do cotovelo. Flexão resistida do punho e pronação do antebraço agrava os sintomas dolorosos.

Fonte: YENG, Lin Tchia. TEIXEIRA, M. J. PICARELLI, Helder. OKANE, Sérgio Yoshimasu. ROMANO, Miriam Aparecida. BENEGAS, Eduardo. FRANCO, Regina Aparecida. AZZE, Ronaldo J. ARAÚJO DE ANDRADE, Daniel Ciampi. Síndromes dolorosas dos membros superiores. Rev. Med. (São Paulo), 80(ed. esp. pt.2):317-34, 2001.

254 Comentários

  • Emerson, esclerose óssea nada mais é do que um processo normal de envelhecimento do osso, mas pode estar associado com outras patologias.
    tendinopatia é inflamação dos tendoes e bursite inflamação da bursa sinovial é ela que lubrifica a articulação e quando entra em desgaste ela acaba inflamando.

    O melhor é procurar seu medico para que ele entre com o tratamento, sugiro acupunturta e fisioterapia.

  • Boa noite… sou funcionária pública e trabalho com atendimento ao público num período de 8 hrs por dia desde 2003 em condições ergonômicas totalmente incorretas. Sinto fortes dores no ombro direito, braço e mão, formigamento, perda de força e outros sintomas. Realizei uma ressonância magnética da coluna e ombro D e o resultado foi Discopatia Degenerativa Cervical discreta, associada a diminuta protusão discal focal posteromediana em C5-C6 e no ombro Acrômio tipo II, bursite subacromial/subdeltoidea e alterações degenerativas na articulação acromioclavicular. Minha consulta com o ortopedista está marcada para daqui 15 dias, mas estou muito preocupada com este diagnóstico. É muito grave? Tem tratamento de cura? Devo me afastar do trabalho?? Aguardo retorno… muito obrigada.

  • Regiane, entao a cura no sentido de a degeneração voltar a ser o que era antes infelizmente nao, porem voce ira melhorar dos sintomas dolorosos “com o tratamento correto” acredito que seu medico ira te orientar da melhor forma possivel.

  • Ola tenho osteoartrose cervical e clavicular ja fiz fisioterapia tomei todos os tipos de antiinflamatorios e tenho dores constantes dores no braço esquerdo que corre pro peito
    gostaria de saber o que eu poderia fazer para amenizar a dor se tem algum tipo de cura desde
    ja agradeço espero resposta

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